"Minha vontade ardente de criar me empurra continuamente na direção do homem. É assim que o martelo é também empurrado na direção da pedra. Oh, homens! Na pedra dorme uma imagem, a imagem das minhas imagens. Sim ela dorme dentro da pedra mais feia e mais dura...Agora o meu martelo furiosamente luta contra a sua prisão.Pedaços de rocha chovem da pedra..."(Nietzsche)
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Sexta-feira, Julho 10, 2009
Evocações
Evocar é uma palavra que segundo alguns dicionários vem do latim e significa chamar de algum lugar, fazer aparecer, trazer à lembrança. E foi assim mesmo, evocando fatos, lembranças e memórias que Aleida March, viúva de Che Guevara escreveu o livro Evocaciones, ou na versão brasileira Evocação. Ganhei este livro este ano, uma edição em espanhol, que trazia uma dedicatória simples, mas reflexiva: “Saboreie este livro. Der-se o luxo de lê-lo com calma e ele te ensinará muito, em tua vida pessoal e profissional, como uma boa lembrança do que fostes, és e serás”. Acho que a pessoal que me deu este livro, desconhece o valor que ele teve, tem e terá sempre em mim, não porque foi ou é fundamental em minha vida, mas porque os livros são verdadeiramente capazes de nos tocar a alma.
Volto ao livro. No começo ele narra a trajetória de Aleida, sua vida, e acaba nos revelando não só a mulher por quem o mítico guerrilheiro Che se apaixonou, mas o cotidiano cubano e a figura feminina dentro da revolução. Aleida vai intercalando sua história com a de Che, e vai mostrando as nuances do primeiro encontro, da vida cotidiana, dos medos, das frustrações que se fizeram presentes na vida dela, mas que de forma direta estão ligadas a de Che. Talvez por não querer revelar o livro ou até não querer exaltar a figura do grande comandante, é que aqui me atenho a dizer apenas alguns pontos que me deixaram emocionada e curiosa no livro.
Primeiro o fato de a vida inteira, Aleida ter sido a secretária particular de Che, e de ter ciúmes e de ver isso posto no livro de forma tão casual, tão simples. Segundo a capacidade que ela teve de tratar de todos os assuntos dolorosos de forma singela, saudosa e até apaixonada. Mas, de fato o que mais me surpreendeu neste livro, foi revelar-se pra mim, mais uma face de Che, o Che marido, pai e amante. Aleida transcreveu no livro muitos postais de viagens, muitas cartas íntimas e nelas aparece um Che humano, o Guevara que sentia a falta dos filhos, que tinha solidão, que sentia saudades de sua família. Revelou-se uma face muito mais humana do que se imagina, a face daquele que foi capaz de abandonar, “seus pedacinhos de carne”(aqui numa tradução livre) que eram seus filhos, por uma causa maior, por uma luta comum.
Num parêntesis de conversação com outras leituras, esse perfil de Che, me faz lembrar o que os sovietes na Revolução Russa quando diziam, antes de tudo está a revolução. Mas Che faz isso de uma forma dolorosa, humana. Assim como me evoca a Rosa Luxemburgo, que sofreu durante toda sua vida sem ter os filhos que tanto quis.
Che Guevara sofreu entre montanhas e balas, lamentando não ver o crescimento de seus filhos, sem ver os progressos que ele estava ajudando a construir, enfim, doou-se de maneira incondicional. As narrativas de Aleida sobre as despedidas são pra mim à parte forte do livro, elas mostram um amor descontruindo-se e aprendendo com novas circunstancias, mostra desespero, saudade, conformismo, e reconstrução de novos amores, novas vidas.
"Existem circunstancias em que as palavras perdem seu significado e não sabemos ou não podemos explicar a exata dimensão do que nos está ocorrendo. Assim eu me encontrava no momento da despedida...Por isso assimilá-la me custava tanto, aceitá-la me parecia muito difícil" (Palavras de Aleida em Evocaciones, p. 153 – tradução livre)
Este pequeno fragmento resume tantas coisas, mas, sobretudo, uma dor sem tamanho, incalculável, de ver alguém que amamos nos deixando, sem sabermos aonde irá, onde ficará, sem notícias, enfim...Me identifico com Aleida por inúmeros motivos, não porque foi forte, destemida, e versátil, mas porque soube despir seus preconceitos, ultrapassar seus sentimentos e buscar um rumo pra sua vida depois de Che. Ela soube recolher os destroços de um furacão(o mítico comandante Che Guevara) e reconstruir aquilo que ainda podia servir, reutilizar em sua nova vida. O livro é fascinante, porque nos faz vivenciar lembranças de alguém tão sensível, ao lado de alguém tão forte, que era Che. E para mim, revelou outras coisas, tocou minhas lembranças, passeou por minha alma, me fazendo realmente lembrar o que fui, o que sou, o que posso fazer...assim como diz a dedicatória. Evocou em mim caminhos, possibilidades, lembranças que podem construir novas formas de ver a vida, o mundo, os outros. Não precisamos ser mitos para saber que amar requer abnegação, renúncia, obstinação, paciência e acima de tudo paixão. Amar é uma entrega que nos adoece e nos cura, nos faz monstros de atos e amantes de destinos.
“Assim tenho passado uma boa parte de minha vida; tendo que refrear o carinho por outras considerações e as pessoas crendo que tratam com um monstro mecânico. Ajuda-me agora, Aleida, seja forte e não me crie problemas que não se podem resolver. Quando nos casamos sabias quem eu era. Cumpra sua parte para que o caminho seja mais leve, que é muito largo ainda. Me queres, apaixonadamente, mas compreensivamente, meu caminho está traçado, nada me deterá senão a morte. Não sintas pena de mim, invista na vida e vence-a, e algumas curvas deste caminho nós faremos juntos. O que levo por dentro não é nenhuma despreocupada cede de aventuras e o que implica, eu já sei; você devia adivinhá-lo...
Educa as crianças. Não os deixe mal-criados, não os mime demais, sobre tudo a Camilo. Não penses em abandoná-los porque não é justo. São parte nossa.
Te abraça com um abraço grande e doce,
Tu tatu” (Carta de Che, que se intitulava Tatu, na época em que foi lutar no Congo a Aleida. Nesta data Aleida queria ir ao encontro de Che, devido aos longos meses de sua ausência. Carta transcrita com tradução livre, presente em Evocaciones, p. 157).
Evocações pode ser encontrado em qualquer livraria do Brasil, é um livro pequeno e gostoso de ler, uma recomendação de leitura. Bom fim de semana!
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11:24 PM
Quarta-feira, Julho 01, 2009
Farewell
Por Pablo Neruda
Desde el fondo de ti, y arrodillado,
un niño triste como yo, nos mira.
Por esa vida que arderá en sus venas
tendrían que amarrarse nuestras vidas.
Por esas manos, hijas de tus manos,
tendrían que matar las manos mías.
Por sus ojos abiertos en la tierra
veré en los tuyos lágrimas un día.
Yo no lo quiero, Amada.
Para que nada nos amarre
que no nos una nada.
Ni la palabra que aromó tu boca,
ni lo que no dijeron tus palabras.
Ni la fiesta de amor que no tuvimos,
ni tus sollozos junto a la ventana.
Amo el amor de los marineros
que besan y se van.
Dejan una promesa.
No vuelven nunca más.
En cada puerto una mujer espera:
los marineros besan y se van.
(Una noche se acuestan con la muerte
en el lecho del mar.)
Amo el amor que se reparte
en besos, lecho y pan.
Amor que puede ser eterno
y puede ser fugaz.
Amor que quiere libertarse
para volver a amar.
Amor divinizado que se acerca
Amor divinizado que se va.
Ya no se encantarán mis ojos en tus ojos,
ya no se endulzará junto a ti mi dolor.
Pero hacia donde vaya llevaré tu mirada
y hacia donde camines llevarás mi dolor.
Fui tuyo, fuiste mía. ¿Qué más? Juntos hicimos
un recodo en la ruta donde el amor pasó.
Fui tuyo, fuiste mía. Tú serás del que te ame,
del que corte en tu huerto lo que he sembrado yo.
Yo me voy. Estoy triste: pero siempre estoy triste.
Vengo desde tus brazos. No sé hacia dónde voy.
...Desde tu corazón me dice adiós un niño.
Y yo le digo adiós.
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12:53 PM
Segunda-feira, Junho 29, 2009
Hoje organizei meus sonhos em seqüência e prioridades...
HOJE ORGANIZEI MEUS SONHOS EM SEQÜÊNCIA E PRIORIDADES
DESCARTEI AMORES DUVIDOSOS, AMORES FEITOS DE PROMESSAS
CAMUFLADOS SOB O MANTO DO AMANHÃ QUE NUNCA ACONTECE
POR MEDO, COVARDIA, COMODISMO, INSEGURANÇA OU... SEI LÁ.
NÃO QUERO MAIS ENIGMAS QUE DEVORAM MINHAS EXPECTATIVAS
NEM A FACE ENRUGADA DA TRISTEZA REFLETIDA NO MEU ESPELHO.
QUERO RECRIAR A CANÇÃO DA MINHA VIDA EM NOTAS DE ALEGRIA
E RESGATAR O PROJETO ORIGINAL DA MENINA QUE ERA FELIZ E SABIA.
HOJE EU DISSE ADEUS ÀS PROMESSAS CONSTRUÍDAS EM SÉRIES
E ABANDONEI AS UTOPIAS FEITAS EM CERÂMICA QUE TRINCARAM.
NÃO MAIS EMPRESTAREI MINHA ALMA A MOLDES DISFORMES
NEM USAREI AS LÁGRIMAS PARA UMEDECER O BARRO SEM ARTE.
NÃO QUERO O MARTÍRIO DE UM PARAÍSO DO OUTRO LADO DO MURO
NEM O MAPA PARA QUE EU SIGA PISTAS DE POTENCIAL VITÓRIA
QUERO A FELICIDADE BEIJANDO MINHA BOCA COM SOFREGUIDÃO
E O AMOR PRESENTE FAZENDO BAGUNÇA NO MEU CORAÇÃO.
Texto "Decisão", de Lady Foppa
"Além do Horizonte"... (Roberto Carlos)
Além do horizonte deve ter
Algum lugar bonito pra viver em paz
Onde eu possa encontrar a natureza
Alegria e felicidade com certeza.
Lá nesse lugar o amanhecer é lindo
Com flores festejando mais um dia
Que vem vindo
Onde a gente pode se deitar no campo
Se amar na relva escutando
O canto dos pássaros
Aproveitar a tarde sem pensar na vida
Andar despreocupado sem saber
A hora de voltar
Bronzear o corpo todo sem censura
Gozar a liberdade de uma vida sem frescura.
Se você não vem comigo tudo isso vai ficar
No horizonte esperando por nós dois
Se você não vem comigo nada disso tem valor
De que vale o paraíso sem amor
Além do horizonte existe um lugar
Bonito e tranqüilo pra gente se amar.
Lalalalalalarala, lalalalalalarala...
Se você não vem comigo tudo isso vai ficar
No horizonte esperando por nós dois
Se você não vem comigo nada disso tem valor
De que vale o paraíso sem amor
Além do horizonte existe um lugar
Bonito e tranqüilo pra gente se amar.
Lalalalalalarala, lalalalalalarala...
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7:47 AM
Domingo, Junho 14, 2009
Dia da Rebeldia
Olá meu querido companheiro, Feliz Aniversário!
Te escrevo para contar um pouco de meus sentimentos hoje sobre nossa América,
nosso mundo, nossa história. Hoje tu farias 81 anos e me sinto obrigada a compartilhar
contigo as evoluções e retrocessos pela qual estamos passando. Muito se conquistou
depois de tua partida; tua ausência tornou-se uma bandeira para muitos de nossos companheiros,
os movimentos sociais se organizam agora, tem resistido bravamente à luta contra o imperialismo.
No entanto, perdemos muito tempo, agonizamos e seguimos com uma assustadora apatia política,
nosso sonho de uma América Latina unida tem caminhado, mas não tanto quanto nós gostaríamos.
Recentemente, novas lideranças têm assumido os países de nossa América, tu te orgulharias em ver
que o povo boliviano, território na qual faleceste... está muito mais latino e cheio de identidade, lá
um descendente indígena agora está no poder, ele vem lutando pelas causas de seu povo com
verdadeira bravura. Outros líderes vêm lutando por nossa latinidade, pela união de nossos irmãos
e pelo triunfo da igualdade.
Mas, o inimigo silencioso ainda está entre nós, tu sabes, ele é sempre audacioso e impiedoso.
O grande Império continua com sua mão (in)visível, controlando nossos passos, nossa economia.
Os yanques tem provado de seu veneno, e tem sofrido com uma grave crise econômica, eles merecem...
Aqui em meu país, muita coisa mudou, mas a sensação que tenho é que tudo continua no mesmo lugar,
porque as mudanças nem sempre foram tão grandes quanto almejávamos. Agora temos um operário no
poder, mas seguimos com graves problemas sociais, com um alto índice de analfabetos, com a criminalidade.
Me pergunto como será que agirias se pudesses assistir a estes acontecimentos atuais...
Me pergunto até quando a ignorância do homem continuará a vendar olhos e usurpar mentes...
Hoje, quero lembrar um pouco como te conheci. Eu estava na adolescência e vi um filme
sobre sua história...sim,um filme! Você camarada, já estampa muitos livros e filmes, que em sua maioria
repassam suas idéias de um mais justo. Tornei-me uma admiradora de seus pensamentos.
Por eles, busquei e busco compreender melhor nossa sociedade, nossa necessidade de união latina,
nosso sentimento de um mundo mais justo.
Tenho lido muitos outros camaradas, que como você, lutaram pelos povos do mundo inteiro,
acreditando em um novo modo de ver a vida. Outro dia li Lênin, foi impressionante ver como a
tua prática pode ser justificada pelas idéias dele...Estou me educando politicamente pouco a
pouco, mas o fato é que através de ti, passei a conhecer e almejar um outro mundo.
Outro dia visitei Cuba, e vi de perto tua revolução, você sabe quanto tempo faz? 50 anos...
Alegro-me em dizer que os cubanos resistem. Há muitas falhas que não foram corrigidas,
mas a soberania cubana continua intacta, e a capacidade de lutar a cada dia por um mundo melhor,
faz deles verdadeiros heróis. A revolução cubana foi e é uma inspiração para os novos movimentos
sociais, uma pena que continue a ser bombardeada e subjugada pelo capitalismo.
Hoje, dia 14 de junho, dia de teu aniversário natalício e dia da Rebeldia, eu manifesto e escrevo estas
linhas, como a minha forma de rebeldia. Como a forma que encontrei para dizer a mim mesma, que vale
a pena lutar por um ideal e acreditar no ser humano, na sociedade. Essas palavras são minha forma de dizer:
Sou rebelde! Não concordo com este sistema desumano e devastador! Quero um mundo mais justo e
igualitário para as próximas gerações!
Eu sei, eu sei... são simples palavras que não alteram o curso da história no seu contexto global,
elas não tem o peso de modificar vida, como fizeram as tuas palavras e provavelmente se perderão
nos próximos segundos no vazio. Mas, estas palavras são a expressão mais simples de uma humilde
trabalhadora, que todos os dias, tenta ser melhor, e tenta tornar melhor, com míseros grãos de areia,
a realidade do oceano em que vive.
O que é ser rebelde no mundo de hoje? Como se rebelar diante de uma massa alienada?
O que fazer para contribuir para a construção da verdadeira democracia?
Como responder a estes questionamentos é difícil, companheiro...
Hoje, me recordo do dia em que li sua história, conheci teus pensamentos e do muito que progredi.
Hoje entendo e vejo o mundo de uma maneira diferente, e sinto por não contarmos com sua presença.
Não tenho muitas respostas, vejo um futuro ainda nebuloso para nós, latino-americanos, mas me
consola saber que em alguns de nós, irmãos de luta e pensamento, ainda vive a semente do fervor revolucionário.
Celebro hoje a tua rebeldia, a tua coragem e teu exemplo, que nos guia pelos caminhos tortuosos
e nos revigora nos momentos de desanimo. Despeço-me de ti, eterno companheiro, expressando
minha alegria em poder ser uma pessoa diferente, uma mente esclarecida (embora incompreendida)...
Fiques feliz onde estás, porque tuas idéias não mudaram
apenas o curso da história, mas vidas singulares e incomuns como a minha,
que no dia de hoje, possuem a capacidade de se indignar contra as injustiças e
fomentar idéias transformadoras, pensamentos de rebeldia!
Hasta Siempre Comandante Che Guevara!
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12:38 PM
Segunda-feira, Junho 08, 2009
"Ando tão a flor da pele que qualquer beijo de novela me faz chorar..."
"Sentimento ilhado, morto e amordaçado, volta a incomodar..."
^^
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1:54 PM
Quinta-feira, Junho 04, 2009
... ... ...
Acabo de brigar com meu irmão...
O que isso significa?
Uma ferida a mais na alma.
Não entendo como nossos temperamentos podem ser tão diferentes.
Como as pessoas podem ser diferentes?
Isso foi um estopim de uma semana ruim.
No entanto, me dói algumas coisas agora...
Porque a adrenalina passou...
Eu estou cansada, triste e um pouco decepcionada com a vida
As janelas se abrem e se fecham...
As portas nunca se abrem totalmente
Meu corpo padece e eu sigo inerte
Como um sopro de desilusão e de insatisfação
Próprio daqueles seres humanos perdidos
Me sinto um pouco só, um pouco maltratada
Sem valor, sem amor, sem luz
Repito erros, procuro acertos
Mas as lágrimas teimam em cair
Noite fria agora, e eu penso e me faço
As velhas perguntas de sempre,
Todas elas acabam no:
“ Porque eu senhor?”
e todas às vezes me vem a mesma consolação:
“A vida é assim”...
Tenho defeitos que parecem incorrigíveis
Me sinto menor, feia...voltei ao meu velho complexo...
A velha bolha, ao velho teto de vidro...
Quando a primeira pedra é jogada, saio correndo...
O teto estilhaçado... me fere, me corta...
Acho que vou parar por aqui,
Estas linhas melancólicas
Foram abortadas em um momento de dor...
Deixemos o teto ser reconstruído pela enésima vez...
Vamos esperar a próxima pedra,
O próximo teto despedaçado...
... ... ...
Comments:
9:41 PM
Segunda-feira, Maio 04, 2009
Idiotices...
Minha alma está doente,
acho que minhas palavras são dignas de um tempo que não é
o meu...um tempo em que as palavras, vinham carregadas de dor,
de desespero, de melancolia...
Os dias estão passando...
Inultimente eu achei que a vida sorriria pra mim,
achei que o meu dedo apontaria para um homem bom,
um trabalho decente,
uma vida menos problemática...
Mas me acho dentro de um redemoinho psicológico
Num cratera escura, em que as luzes parecem cada
vez mais distantes de mim...
È como andar sempre na contra-mão,
pisando no chão ardente do asfalto,
sem sombra ou consolação...
Parece que o pouco que me foi dado
deveria ser muito, ilusão...
Idiotice minha achar que a vida poderia
ser boazinha...Idiotices de um jovem coração...
Será que escolhi tudo errado?
Será que nunca sentirei a satisfação plena que tanto almejo...
Não quero uma casa no campo, um jardim com flores...
Quero apenas certezas, respostas, sentimentos...
Que podem vir de uma velha casinha,
beirando um céu cinza...
Fui e sou idiota,
porque acreditei que poderia acreditar no meu coração...
porque segui seus conselhos, sonhos utópicos...
De novo...se vão...
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12:57 PM
Quinta-feira, Abril 23, 2009
As manhãs de quinta-feira...
As manhãs de quinta-feira...
Eu tenho uma utopia. Uma não, várias. Por um dado momento eu paro, eu leio e sonho. Vejo o quanto pertenço ao meu mundo e o quanto faz sentido gostar dele. O conhecimento é um instrumento de luta maravilhoso e é uma pena que ele seja um privilégio para poucos. Não posso negar que construo em mim posições políticas e sociais que não são a da maioria, mas não me culpo por isso. Esses dias caminhei de acordo com o que penso, acredito. Para muitos pode ter sido uma atitude heróica nadar contra a corrente, para mim, um duro exercício de pôr em prática minhas ideologias. Talvez se as escolas de hoje formassem pessoas de consciência crítica, eu não seria uma minoria.
Gosto de pensar que estou lutando não contra pessoas particulares para chegar na minha utopia de futuro, mas que estou me desafiando a cada segundo a defender aquilo que acredito. Meus hábitos burgueses podem condenar muito do que digo, mas minha luta pessoal é o que me move a crer sempre no que penso. Trocar estabilidade por instabilidade é um risco, mas, é preciso correr riscos para se alcançar às utopias. Lutar contra a maré do dinheiro, nos faz ver o quanto somos egoístas, gananciosos, loucos por status e poder. Há uma segregação silenciosa dos que querem viver na igualdade, em harmonia. Há uma rua de espinhos para quem escolheu sua vocação como modo de vida, Há armadilhas diante do homem que resolve compartilhar e não competir. Eu não condeno os pequenos pensamentos que tentam atingir a minha fortaleza utópica, porque eles são um produto desta sociedade. Graças a minha busca sedenta por conhecimento, estou conseguindo enxergar a verdadeira face da vida porque sua complexidade nos faz sempre para e pensar, naquilo que somos, no que queremos, e em como vamos chegar...
Chegar ao destino da paz, da igualdade e da realização das ações que um dia foram fruto de nossas utopias. Adoro minhas manhãs de quinta-feira, nelas eu quito minhas agonias, vôo livre, me compreendo, abro passagem aos meus desejos mais íntimos, às minhas doces utopias!
"É preciso atrair violentamente a atenção para o presente do modo como ele é, se se quer transformá-lo. Pessimismo da inteligência, otimismo da vontade."(Gramsci)
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8:49 PM
Segunda-feira, Março 23, 2009
Começo de semana entediante,
tenho tantas páginas de livros diferentes para ler
que chego a pensar em desistir...
Mas, antes que esse sentimento me abata,
Tracei planos...eles fervilham em mim,
não sei se irei realizá-los, mas o fato é de que só de imaginar
que eles poderão ser reais, já me bate a felicidade
de que não custa nada sonhar...
Acreditar no impossível, é sempre algo difícil demais
para aqueles que encaram a realidade com apatia...
Acredito no impossível, porque dentro de mim,
mora um bicho inquieto, que me enche de alegria...
Em mim mora a esperança e o amor...
Sem desespero para chegar,
Com paciência para esperar...
Boa semana!
Frase da semana: “Somos donos de nossos atos,
mas não donos de nossos sentimentos;
Somos culpados pelo que fazemos,
mas não somos culpados pelo que sentimos;
Podemos prometer atos,mas não podemos prometer sentimentos...
Atos são pássaros engaiolados, sentimentos são pássaros em vôo.”
(Rubem Alves)
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12:17 PM
Terça-feira, Março 17, 2009
Pôr-do-sol...
Parece-me que estou sendo injusta ao descontar minhas frustrações e incertezas nos outros. Mas meu autocontrole anda com problemas de regulagem. Ando inquieta e deprimida e só eu sei porque...talvez pela minha idiotice em acreditar “que tudo é perfeito e todas as pessoas são felizes” como já diz o verso da música do Legião Urbana...ou talvez porque eu realmente não saiba que rumo tomar, que decisão é a mais sensata...minha vida sempre foi assim...No entanto, quero compartilhar hoje, uma parte de um livro que estou lendo, de Lévi-Strauss, Tristes Trópicos. Apesar de não concordar em muitas coisas com o autor e quase querer matá-lo pelas suas descrições ácidas sobre o Brasil, sou obrigada a me curvar e dizer que ele realmente sabe descrever um acontecimento de forma detalhada e fascinante. Ele descreve o pôr-do-sol...um fenômeno que presenciei tantas vezes enquanto viajei recentemente, mas que dessa forma magistral não consegui descrever, e ao ler o relato de Strauss me peguei pensando naquilo que vivi, nos poentes que presenciei e em todas as recordações, que não vão voltar e que eu não sei se quero rememorar...
“Quanto ao pôr-do-sol, é outra coisa; trata-se de uma representação completa, com um início, um meio e um fim. E esse espetáculo oferece uma espécie de imagem reduzida dos combates, das vitórias e das derrotas que se sucederam durante doze horas de modo palpável, mas também mais lento. A aurora é apenas o início do dia; o crepúsculo é sua repetição. Eis por que os homens prestam mais atenção no sol poente do que no sol nascente; a aurora só lhes fornece uma indicação suplementar às do termômetro, do barômetro e – para os menos civilizados – das fases da lua, do vôo dos pássaros ou das oscilações das marés. Ao passo que um pôr-do-sol eleva-os, reúne em misteriosas configurações as peripécias do vento, do frio, do calor ou da chuva nas quais seu ser físico de debateu. Os caprichos da consciência podem também ser lidos nessas constelações algodoadas. Quando o céu começa a se iluminar com os clarões do poente, o camponês suspende sua caminhada pela trilha, o pescador retém seu barco e o selvagem pisca o olho, sentado perto de um fogo declinante. Recordar-se é uma grande volúpia para o homem, mas não na medida em que a memória se mostra literal, porque poucos aceitariam viver novamente as labutas e os sofrimentos que, no entanto, gostam de rememorar. A recordação é a própria vida, mas com outra qualidade. Assim, é quando o sol se abaixa sobre a superfície polida da água calma, tal como o óbolo de um celestial avarento, ou quando, seu disco recorta a crista das montanhas como uma folha dura e denteada, que o homem encontra por excelência, numa curta fantasmagoria, a revelação das forças opacas, dos vapores e das fulgurações cujos obscuros conflitos, no fundo de si mesmo, e ao longo de todo o dia, ele vagamente percebeu.[...] Há duas fases bem distintas num pôr-do-sol. No início, o astro é arquiteto. Só depois(quando seus raios chegam refletidos e não mais diretos), transforma-se em pintor. Assim que se esconde atrás do horizonte, a luz enfraquece e faz surgir planos a cada instante mais complexos. A luz plena é inimiga da perspectiva, mas, entre o dia e a noite, há lugar para uma arquitetura tão fantasista quanto temporária. Com a escuridão, tudo se achata de novo, como um brinquedo japonês maravilhosamente colorido.” (Fragmento retirado do livro Tristes Trópicos, de Lévi-Strauss, pág. 63)
Have a nice day!
Comments:
11:48 AM
Sexta-feira, Março 13, 2009
Estes dias ando escrevendo versinhos e lendo poesia, assim compartilho com vocês minhas letras desgarradas e um grande poema do mestre Neruda.
Hoje eu queria apenas...
o som da sua voz,
a luz do seu sorriso,
o seu jeito de me olhar,
a paz de tuas palavras,
o teu breve cantarolar.
Hoje eu queria apenas...
poder voar,
saber esperar,
adivinhar o futuro,
Ter sabedoria,
te encontrar.
Hoje eu queria apenas...
Não sentir sua falta,
Esquecer sua voz,
Não ter conhecido você.
Hoje eu queria apenas...
Não pensar no que querer...
Querer (Pablo Neruda)
Não te quero senão porque te quero
E de querer-te a não querer-te chego
E de esperar-te quando não te espero
Passa meu coração do frio ao fogo.
Te quero só porque a ti te quero,
Te odeio sem fim, e odiando-te rogo,
E a medida de meu amor viageiro
É não ver-te e amar-te como um cego.
Talvez consumirá a luz de janeiro
Seu raio cruel, meu coração inteiro,
Roubando-me a chave do sossego.
Nesta história só eu morro
E morrerei de amor porque te quero,
Porque te quero, amor, a sangue e a fogo.
(Pablo Neruda)
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3:41 PM
Pensando em não pensar...achei estes versos de Florbela, o que me fez parar, apreciar e voltar a pensar...
Em quem será?
Escreve-me...
Escreve-me! Ainda que seja só
Uma palavra, uma palavra apenas,
Suave como o teu nome e casta
Como um perfume casto d'açucenas!
Escreve-me!Há tanto,há tanto tempo
Que te não vejo, amor!Meu coração
Morreu já,e no mundo aos pobres mortos
Ninguém nega uma frase d'oração!
"Amo-te!"Cinco letras pequeninas,
Folhas leves e tenras de boninas,
Um poema d'amor e felicidade!
Não queres mandar-me esta palavra apenas?
Olha, manda então...brandas...serenas...
Cinco pétalas roxas de saudade...
Florbela Espanca - Trocando olhares - 29/07/1916
Comments:
12:26 AM
Quarta-feira, Março 11, 2009
Um ser complexo...
Tive sempre a impressão de que somos uma caixa de surpresas. Parece clichê, mas nós somos.
Mutamos, e muitas e muitas vezes deixamos de compreender o outro e de nos compreender.
Ultimamente as coisas estão nebulosas e isso me fez parar pra pensar no que eu sou, no que nós somos, o porquê de estarmos aqui.
Talvez perguntas sobre a existência e sobre os porquês da vida sejam meus temas favoritos, mas eles me chamam atenção justamente pela complexidade.
Tenho perdido a capacidade de síntese, talvez nunca ela tenha estado comigo, mas de fato, falar sobre o ser humano é algo complicado, melindroso, eu diria.
Como entender certas atitudes humanas?
A falta de ética, de amor, de amizade, a traição?
Como entender que pais podem violentar seus filhos, amigos podem ser frios e insensíveis e que até mesmo as pessoas que escolhemos para amar podem nos trair?
Essas últimas semanas tenho pensado muito nisso, sendo provocada especialmente pelo caso da menina que foi violentada por seu padastro e ficou grávida aos 9 anos de idade.
Sem mais palavras, eu nessas condições dou apoio aos médicos que realizaram o aborto e vou contra a minha própria religião. Acredito que seria um crime maior deixar uma criança pagar pelos erros de uma outra pessoa, pela insanidade de um outro indivíduo. Fico extremamente indignada com a igreja, pois acho que ela deveria acolher e não escomungar. Jesus Cristo muitas vezes abriu os braços e deu o perdão, como esta criança seria feliz criada por outra criança? Ela seria sempre um reflexo ruim na vida daquela família. Não entendo como não pensar nisso. Não sou a favor do aborto, mas nestas condições, eu acredito ser a atitude mais correta e racional. Volto meu olhar de novo ao ser humano, ao clichê da caixinha de surpresas, ao fato de simplesmente agirmos sem pensar, de machucar o outro, de prejudicar nossos amigos, de matar, trair, julgar, afinal quem somos nós?
Que espécie de sociedade nós desenvolvemos? Que valores estão presentes e ausentes em nós? Será que basta ajoelhar-se na igreja e trapacear e julgar? Será que vale vestir uma farda e exibir autoridade e se corromper?
Nossa cultura vem se transformando e perdendo pouco a pouco aquilo que muitos chamam de costumes caretas, do tempo da vovozinha, respeitar leis sociais, como o incesto. Respeitar os mais velhos, os outros, agir com ética, seriedade e dignidade. O velho e bom capitalismo selvagem, a concorrência desleal, vem cegando os homens, e muitos de nós, esquecem o que eu chamo de valores...Esquecem quem são, de onde vem, e que não precisam humilhar, tripudiar e cometer crimes para se sentir bem consigo e com os outros. Para que a ganância, se no final estamos todos sujeitos a roda-viva do capitalismo, hoje ricos, amanhã pobres.
A sociedade anda doente e eu ainda acredito na sua cura, em pessoas mais humanas, menos egoístas, menos instigadas a competir a qualquer custo. Eu ainda acredito que a sabedoria um dia voltará a guiar os passos deste país, e as pessoas enxergarão muito mais nos outros e nelas mesmas. Saberão ver não só suas próprias capacidades, mas seus defeitos, e ao enxergar isso, transformarão suas vidas em uma rota mais tranquila e saudável de seguir. Espero um dia poder escrever com propriedade sobre a complexidade humana, não do ponto de vista de alguém que estudou muito, mas do olhar de alguém que viu outros tempos, que assistiu muitas mutações, alguém que viveu muito, alguém que questinou sempre sua própria história.
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4:25 PM
Sexta-feira, Março 06, 2009
Stand By Me
(John Lennon)
When the night has come
And the land is dark
And the moon is the only light we'll see
No I won't be afraid
No I won't be afraid
Just as long as you stand, stand by me
CHORUS:
So darling, darling stand by me
Oh, stand by me, oh, stand
Stand by me, stand by me
If the sky that we look upon
Should tumble and fall
Or the mountains should crumble to the sea
I won't cry, I won't cry
No I won't shed a tear
Just as long as you stand, stand by me
CHORUS
Whenever you're in trouble
won't you stand by me
Oh, now, now, stand by me
Oh, stand by me, stand by me, stand by me
CHORUS
Fique Comigo (Conte Comigo) *
(John Lennon)
Quando a noite tiver chegado
E a terra estiver escura,
E a lua for a única luz que veremos,
Não, eu não terei medo
Não, eu não terei medo,
Da mesma maneira que quando você fica, fica comigo...
REFRÃO:
Então querida, querida, fique comigo
Oh, fique comigo, oh, fique
Fique comigo, fique comigo...
Se o céu que vemos lá em cima
Desabasse e caísse
Ou as montanhas desmoronassem para o mar
Eu não choraria, eu não choraria,
Não, eu não derramaria uma lágrima,
Igual quando você fica, fica comigo...
REFRÃO
A qualquer hora que você estiver com problemas,
você não contará comigo?
Oh, agora, agora, conte comigo
Oh, conte comigo, conte comigo, conte comigo.
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12:43 PM
Terça-feira, Fevereiro 17, 2009
Já comecei diversas vezes o mesmo texto, “a minha viagem a Cuba”. Mas nas diversas vezes estacionei diante da complexidade que é falar sobre meu destino. Como me despir de tudo para escrever? Não há possibilidades. Decidi colocar aqui algumas das muitas impressões da viagem, sem me preocupar com a ordem das coisas, a forma do texto ou até mesmo com o meu compromisso de “imparcialidade” jornalística. Somente, permitir que as palavras fluam, que meus pensamentos divaguem, aflorem... Na verdade, eu me senti menos jornalista em Cuba. Lá eu era uma jovem tentando descobrir se os meus ideais poderiam ser verdadeiros, menos utópicos, reais. E não alguém em busca de uma grande reportagem, de um furo, de algo curioso.
Foi lá que dei início ao abandono do meu plano inicial, escrever meu livro, porque percebi que para fazer algo bem feito, eu precisava observar, ver os fatos na normalidade, muitos e muitos dias, diversas e diversas vezes. Não queria me entregar ao que muitos já fizeram, o superficial. Decidi que ser mais cientista social seria mais conveniente, mais proveitoso para um possível sonho futuro de escrever sobre aquele país. Durante toda a minha viagem, inúmeras perguntas, algumas ainda sem resposta, dispararam em minha mente. Talvez porque eu tivesse uma ilusão formada de Cuba quando cheguei. Como abordar em simples linhas a realidade do regime socialista na teoria e na prática? Complicado. Restrinjo-me a dizer que por trás do sol caribenho, há problemas e soluções, erros e acertos. Não considero o regime um erro, o que Cuba vem tentando há 50 anos é um exemplo de que podemos construir uma sociedade diferente, e a ilha do Comandante mostra isso. Uma sociedade diferente é pouco para defini-la, mas já é o bastante para torná-la atraente . A economia cubana é uma caixinha de surpresas, há duas moedas no país: o peso cubano e o peso Convertible(cuc). O peso Cubano é a moeda do povo cubano, o CuC é usado pelos estrangeiros. Essa separação causa um abismo na economia, gera desigualdade, rebeldia, insatisfação. Basta saber que 1 cuc vale 25 pesos cubanos, e que o salário médio que um médico ou professor recebe em Cuba é de 400 pesos cubanos mensais, ou seja 16 Cuc(R$ 48,00), e aí meus caros companheiros está lançado o meu impasse. Viver em Cuba é um desafio, muitas e muitas vezes eu escutei as seguintes frases: “No es fácil” ou “ Es difícil”. Porque elas expressam bem a vivência cubana.
Quando cheguei à ilha, minha mente capitalista não internalizou o que os livros já tinham me dito, tudo no socialismo é do Estado. O Estado...eu ouvi tantas vezes essa palavra que cansei. Quando eu cheguei, eu não entendia como funcionava a economia, de onde vinha a revolta daqueles que querem sair, porque tantas restrições... Em Cuba, o Estado oferece a população educação e saúde gratuita, e dá uma ajuda a cada família, proporcionalmente a quantidade de membros que ela tenha, através da “livreta”, que é uma cardeneta, fornecida pelo estado onde constam itens que todo cubano tem direito de receber. Eu acompanhei uma ida a venda, da Dona da casa onde me hospedei, ela levou consigo um saco e foi “comprar” arroz. Recebeu parte do que tinha direito da sua cota. Intrigava-me o fato de que todo o método de ajuda alimentícia parecia muito com a nossa aqui do Brasil, a cesta básica por exemplo. Mas, assim como aqui, lá a livreta não consegue suprir as necessidades do mês inteiro, e é por isso, que nem todos os socialistas são vagabundos, como alguns julgam serem, eles trabalham para comer o resto do mês que a livreta não fornece. Nós também fazemos isso, e o que nos diferencia deles? O que está em jogo neste sistema complexo, é a mudança de valores e de costumes que tornam diferente esta sociedade. Para entender como somos diferentes, basta observar um cubano numa rua comercial, ele entra nas famosas lojas chamadas de shoppings, onde tudo é vendido em Cuc e observa tudo com uma impressionante cobiça. A sensação de impotência deve ser enorme, porque como comprar um objeto(camiseta, por exemplo) que vale míseros 15 cuc, se isso equivale ao seu salário mensal em pesos cubanos? Como dizer que eles estão livres para comprar, se na verdade, há uma grade invisível entre os objetos de desejo e os cubanos? Como entender e achar a igualdade nisso tudo? Como absorver esse desejo consumista nesta sociedade? Perguntas complexas para respostas incertas. Vi a igualdade na mesa de cada cubano, a sensação que se tem é que não há casa que não haja arroz com feijão, café, pão. Eles compartilham as coisas na maneira interiorana, eu te dou um pouco de açúcar e você me empresta seu telefone. Parece-me que Eles desconhecem essa nossa competitividade acirrada, essa nossa sede de ser o mais rico, o mais bem vestido, o melhor dos melhores a todo custo. Adoram mostrar que podem estar arrumados, adoram um brilho, se enfeitam, mas isso não aparece como uma soberba descomunal, como uma gana desvairada de ser mais que qualquer ser vivente na face da terra. Um cubano não está preocupado em fazer medicina pra trabalhar em um hospital e ganhar rios de dinheiro, ele sabe e aprende que antes de tudo ele tem o dever de servir ao seu povo, ao ser humano. Essa palavra diferencia muita coisa: humanidade. Certa vez um professor Cubano, em palestra aqui no Brasil, questionado sobre a diferença do jovem cubano para o brasileiro respondeu que ‘ o jovem brasileiro está preocupado com o mercado, com a concorrência, com a falta de vagas, com a saturação da sua área, o jovem cubano forma-se para servir sua pátria, para dividir de maneira comum seus conhecimentos... ’ Talvez você ache que há um exagero exacerbado na minha colocação, será que os cubanos são perfeitos? Não, eles não são. Eles podem contrariar essas regras, e acreditar que a revolução e a privação não é o caminho, muitos o fazem e por isso, em busca de terem tudo que o capitalismo pode lhes oferecer se jogam ao mar. Entretanto, observando mais do que questionando, eu vi o trabalhador cubano, cheio de solidariedade e de simplicidade, cheio de esperança de que as coisas podem melhorar. O pouco se divide e torna-se muito. E apesar de serem tentados a consumir aquilo que quase sempre não podem ter, eles não perdem a capacidade de lutar e viver alegres. Eles possuem um senso crítico sobre sua própria realidade enorme. Eles, e só eles, conhecem o significado da frase de Fidel que diz que revolução é... ”...es emanciparnos por nosotros mismos y con nuestros propios esfuerzos...”.
Parece injusto privar alguém de comprar algo que quer, de evoluir, de ter um mp3, um computador, um DVD, uma TV de tela plana, uma câmera digital ou qualquer outra coisa que surja dentro do patamar modernidade. Mas será que não valeria à pena trocar tudo isso por segurança, saúde e educação? Depois do choque cultural que levei, e depois de tudo que fui absorvendo enquanto estive lá, eu percebi, que muito mais do que rebelar-se com o sistema em que vivem, o que está em jogo é a consciência do que o povo ganhou com ele, do país que foi construído por ele. Ouvi de uma mulher cubana a seguinte frase: “...chica, eu não sei o que é capitalismo, tenho 32 anos e só conheço o socialismo, mas se hoje você me perguntar se eu quero sair daqui e me mudar, com tudo isso que passamos, eu ficaria. Porque aqui eu tenho a segurança e a beleza que não encontraria em outro lugar”. Isso me fez entender muitas coisas, conversar com ela, quase nos últimos dias de minha estada na ilha me fez compreender a essência de alguns valores, que só se entende estando lá. Eu não consigo descrever as minhas descobertas, as minhas inquietações, e as conclusões que surgiram de uma maneira objetiva.
Talvez uma delas, esteja vinculada ao que Marcel Mauss escreveu em seu ensaio sobre a dádiva, com relação aos sistemas de troca a que nós, humanos, estamos sujeitos. A economia cubana, e o povo cubano, acostumaram-se a trocas, que tem suas hierarquias, suas particularidades. A economia, o homem e suas trocas. Precisaria de mais tempo para entender todos estes elementos em harmonia. A atitude de aplicar uma injeção de maneira gratuita, com simpatia e acolhimento, sempre vem seguida de um agrado, de uma troca. Será que duas caixinhas de suco deixariam tão feliz um enfermeiro aqui, como deixou lá? Não sei como separar tudo que vi e ouvi e meditei, e que mudei em mim. É como sempre penso... cada viagem muda um pouquinho em nós, a capacidade de refletir sobre a vida. Cuba me mudou em muitos sentidos, ela me deixou interrogações latentes, pulsantes... e eu espero voltar, não só porque lá, eu deixei boas recordações da minha história, mas porque quero confrontar-me de novo com aquela realidade, tão diferente da minha,mais que me desperta tantos sonhos e questionamentos. Quero voltar, esperando está de posse de um conhecimento mais aprofundado que me permita definir o que para mim, foi à revolução, o que é o socialismo cubano, os pontos altos da sua economia e os pontos incertos desse nebuloso futuro. Mas enquanto meus pés não tocarem novamente o solo daquela ilha, contento-me em escrever linhas desgarradas de pensamentos, sobre fatos, conversas e observações, que fiz à flor da pele e que percebi à primeira vista.
Saudações Cubanas, compañeros!
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12:47 AM
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